Vitalik Buterin, cofundador da Ethereum, recentemente estabeleceu uma nova meta para o futuro da blockchain: simplificá-la radicalmente até 2030. Inspirado pela estrutura enxuta do Bitcoin, ele acredita que a resiliência e a escalabilidade do Ethereum estão diretamente ligadas à adoção de um protocolo mais simples — tanto em termos de código quanto de filosofia de desenvolvimento.
Por que simplificar o Ethereum?
Buterin destaca que a força do Bitcoin está justamente na simplicidade do seu protocolo, o que o torna acessível até mesmo para estudantes do ensino médio. Em contraste, o Ethereum, ao longo dos anos, se tornou excessivamente complexo, acumulando camadas de código que, como consequência, aumentam os custos de manutenção, elevam os riscos de bugs e dificultam o entendimento do funcionamento da rede.
Segundo o próprio Buterin, essa complexidade decorre, muitas vezes, de decisões passadas — inclusive as suas. Diante disso, ele defende que a rede deve priorizar estruturas minimalistas e encapsuladas, que por sua vez reduzem riscos sistêmicos sem, no entanto, comprometer a funcionalidade.
Ethereum simples: simplificação da camada de consenso
Uma das principais frentes dessa transformação é a proposta da Beam Chain, que substituiria a atual beacon chain. Com isso, a Beam Chain reduz conceitos complexos como slots, épocas e comitês de sincronização, tornando possível uma estrutura mais enxuta, composta por cerca de 200 linhas de código.
Essa nova camada também diminuirá o número de validadores ativos, o que, por consequência, abre espaço para a adoção de regras de bifurcação mais simples e seguras. Adicionalmente, tecnologias como os protocolos STARK permitirão que qualquer usuário atue como agregador, o que contribui para democratizar ainda mais a rede sem, contudo, comprometer a segurança.
Ethereum simples também na camada de execução
Na camada de execução, Buterin propõe substituir a tradicional Máquina Virtual Ethereum (EVM) pela arquitetura RISC-V, considerada até 100 vezes mais eficiente. Além do ganho em performance, o RISC-V traz simplicidade estrutural, o que torna a base do Ethereum mais fácil de entender e manter.
Essa transição será feita em fases:
Novas pré-compilações escritas em RISC-V;
Contratos poderão ser desenvolvidos nessa linguagem;
Substituição completa das pré-compilações via hard fork;
Implementação de um interpretador EVM em RISC-V diretamente na blockchain.
Redução da complexidade do código crítico
Buterin divide o código da Ethereum em três áreas: verde (código crítico de consenso), amarela e laranja. Seu objetivo é reduzir ao máximo o código na área verde, migrando funções para áreas de complexidade encapsulada — onde falhas não afetam o consenso da rede.
Essa busca por simplicidade se reflete também na proposta de unificação de padrões e formatos. Por exemplo, o uso do SSZ como formato de serialização único facilitaria a comunicação entre as camadas de execução, consenso e contratos inteligentes. Da mesma forma, há a proposta de migração da árvore de dados atual para uma árvore binária, que é mais simples e eficiente.
Uma nova filosofia
Além das mudanças técnicas, Buterin propõe também uma transformação cultural no desenvolvimento do Ethereum, voltada para a simplicidade como princípio central do protocolo. Ele sugere adotar uma meta explícita de limitar o número de linhas de código no núcleo — seguindo o exemplo do projeto Tinygrad. Segundo ele, a comunidade deve valorizar sempre que possível a solução mais simples, mesmo que isso implique abrir mão de funcionalidades mais complexas.
O futuro do Ethereum depende da simplicidade
A proposta de simplificar o Ethereum vai além da estética ou facilidade. Na verdade, trata-se de uma estratégia para garantir segurança, resiliência e acessibilidade no longo prazo. Com isso em mente, ao adotar uma filosofia de desenvolvimento mais enxuta e modular, o Ethereum pode alcançar a robustez do Bitcoin — sem, no entanto, abrir mão da flexibilidade e inovação. Se concretizadas, as mudanças propostas por Vitalik Buterin podem marcar uma nova era para o Ethereum: mais simples, mais seguro e mais eficiente.
