Stablecoins do Walmart e Amazon provocam reação no Senado
Amazon e Walmart estão no centro de um novo embate político nos Estados Unidos. Os senadores estão prestes a votar a proposta legislativa conhecida como Lei GENIUS, que reacendeu preocupações sobre o poder financeiro de gigantes corporativos. A senadora Elizabeth Warren e entidades de defesa do consumidor alertam para o risco de empresas como Amazon, Walmart e outras lançarem moedas privadas sem uma regulação sólida.
Para Warren, a proposta tem uma brecha crítica: ela permite que grandes varejistas e empresas de tecnologia emitam stablecoins estruturadas como dinheiro digital privado. Segundo ela, essa permissão abre caminho para que nomes como Elon Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg explorem dados dos consumidores, rastreiem transações e eliminem concorrentes. A senadora exige que o Congresso corrija essas falhas antes de aprovar definitivamente o texto.
As críticas não partem apenas da esquerda. O senador Josh Hawley, do Missouri, também se opôs publicamente à legislação. Em entrevista publicada pelo New York Times, ele classificou o projeto como um “presente gigante às big techs” e questionou a ausência de controles rigorosos sobre a emissão dessas moedas digitais.
Big techs avançam com planos de emissão
A proposta é acompanhada de movimentações estratégicas. De acordo com o Wall Street Journal, se o Congresso aprovar a Lei GENIUS, empresas como Amazon, Walmart e Expedia estão prontas para lançar suas próprias stablecoins. Com isso, elas poderiam reduzir drasticamente custos com processadores de pagamento, que cobram bilhões de dólares em taxas. Enquanto isso, essas empresas ganhariam acesso direto a dados financeiros detalhados dos clientes.
Paralelamente, grandes operadores financeiros tradicionais também observam oportunidades. A DTCC, que liquida negociações no mercado de ações dos EUA, está estudando sua própria stablecoin, conforme apontado em matéria do The Information. Essa iniciativa reforça a percepção de que a adoção de stablecoins está deixando de ser exclusiva do ecossistema cripto.
Stablecoins funcionam como uma ponte entre os criptoativos e o sistema financeiro convencional. Em geral, estão atreladas ao dólar e oferecem estabilidade para transações digitais. Como resultado, elas se tornam ferramentas ideais tanto para consumidores quanto para empresas. Se bem regulamentadas, essas stablecoins podem trazer eficiência ao mercado. No entanto, a falta de limites claros pode abrir brechas para concentração de poder e vigilância em larga escala.
Críticas alertam para riscos sistêmicos
Organizações civis estão alertando para as consequências da proposta. Conforme explica Corey Frayer, diretor da Consumer Federation of America, permitir que stablecoins do Walmart e Amazon entrem em circulação poderá comprometer a estabilidade econômica de longo prazo. Isso ocorre porque a separação entre funções bancárias e comerciais pode ser facilmente desfeita nesse cenário.
De maneira similar, Amanda Fischer, diretora de políticas da Better Markets, destacou o problema de concorrência desleal. Em publicação no X, ela apontou que pequenos empreendedores terão sérias dificuldades para competir, caso corporações passem a operar sistemas bancários próprios, fora da regulação formal.
A Lei GENIUS já recebeu ajustes após pressões democratas, que adicionaram restrições importantes. No entanto, a versão atual ainda permite que grandes empresas emitam stablecoins com requisitos considerados acessíveis. Mesmo com o novo texto, a crítica principal permanece: ele legitima moedas privadas sob o controle de entidades com vasto poder de mercado.
Com a votação final se aproximando, a proposta tem apoio bipartidário. Caso aprovada no Senado, seguirá diretamente para a Câmara, onde a expectativa é de rápida tramitação. Por fim, será encaminhada à mesa do presidente Donald Trump. Como mostrou a análise da Trackmetria, esse projeto pode mudar de forma profunda o cenário das stablecoins nos Estados Unidos.
De acordo com Salah Ghazzal, analista da Blockchain Association, a movimentação das empresas tradicionais indica que o mercado passou a tratar os ativos digitais como infraestrutura econômica, e não mais como meras apostas especulativas. Esse novo entendimento pressiona o Congresso a aprovar marcos regulatórios sólidos e urgentes.
